sexta-feira, 18 de outubro de 2013

À PROFESSORA

Aos seis anos de idade eu já tocava Beethoven, aos treze já tinha lido tudo e aos dezoito eu era o centro do universo, o sol com os seus raios límpidos embelezando o mundo com suas cores. Foi um voo inacreditável, a mais pura expressão do corpo em liberdade, um resgate ao corpo infantil através de uma sensibilidade que ultrapassou montanhas e vales numa compreensão profunda da alma humana sobrevoando o mundo, era o êxtase da criação. Mas como, todos os dias, o sol desce para iluminar o mundo inferior, eu cai.

Sou de uma família riquíssima e me formei em medicina, tenho bastante dinheiro para viver sem preocupação e não mais da profissão. É por isso que decidi não mais aceitar o crepúsculo e viver sempre voando, sempre menino. E é claro que para isso, diante da minha irresponsabilidade infantil, eu me viciei em estimulantes para poder manter meus voos numa fraqueza diante da queda. Estou acostumado quando minha euforia leva-me às alturas, ultrapasso o limite das pessoas proporcionando-as o êxtase sem medo do ridículo. A essa altura a bagunça está formada e por isso sou levado ao manicômio para baixar minha euforia como se eu estivesse perdido completamente a razão. Nos últimos vinte anos entrei e sai em mais de vinte manicômios.

Bom, mas vamos ao que interessa. Claro que eu não iria me jogar do telhado daquela casa, eu só queria o equilíbrio ao menos um instante já que eu não posso evitar a contingência da queda. Por um instante a morte é o equilíbrio, eu queria sentir o limite num instante, o voo rasante daquele avião num equilíbrio entre o voo e a queda, até porque no fundo eu sei que se pode encontrar o equilíbrio em vida, morrer e renascer em vida. Minha irresponsabilidade infantil diante da queda faz-me procurar um atalho no instante, mas sei que tenho um caminho à percorrer: aceitando a queda, ou seja, a morte em vida, o crepúsculo. Outra coisa também, que me compromete diante de vocês psiquiatras, é saber que Bach não se toca lento do jeito que aquele maestro estava tocando, aquilo me feria os ouvidos (risos),

A existência humana é constituída de dois pólos: vida, morte; ser, não-ser; luz, sombra; bem, mal; céu, inferno; dia, noite. O homem se viu diante da morte e não pode aceitar tal absurdo, tratou de estabelecer regras para todos como uma forma de reduzir a ansiedade diante de tal absurdo, a vida se transformou numa função de preservação do grupo, onde a vivência pessoal das experiências particulares se torrnam um vácuo para o indivíduo diante da indiferença do grupo, e para que eu não abandonasse minhas convicções pessoais teria que me autoafirmar moralmente frente ao grupo, implicando uma imposição preservadora da minha liberdade. Pois é assim que caminha a humanidade: nega a morte e se eterniza na preservação dos valores na autoafirmação ôntica do ser. 

Quem tem consciência para ter coragem de aceitar a morte na queda depois do grande voo para a liberdade numa fantástica percepção bipolar de si mesmo? Pois é, foi justamente por não me permitir à pretensão de uma autoafirmação moral, a qual me levaria em uma direção oposta aos valores do grupo, que eu preferi estar sempre voando feito um menino. No entanto, por mais que eu fuja da queda para preservar vocês e a mim, ela me é inevitável, tornando-se muito perigosa no que diz respeito ao voo prolongado, causando um distúrbio nos pólos devido a sua desarmonização, ou seja, voo muito alto, queda profunda – transtorno bipolar. Confesso o perigo que há em lidar sozinho com a pressão da queda profunda, isso me conduziria ao suicídio, que alias tem forte possibilidade de acontecer, até porque isso passa realmente pela minha cabeça. Agora vir a cometer o ato seria um problema.

Vou lhe contar professora o que realmente aconteceu comigo aos dezoito anos quando me tonei o centro do universo. Eu estava muito triste pela falta de sentido daquilo tudo que eu conhecia. Você sabe: Mestre em música clássica aos oito anos, conhecimento literário aos quinze, etc. Mas faltava sentido para aquelas maravilhas que eu havia aprendido, então resolvi procurar esse sentido no limite do instante, ver até aonde eu poderia ir. Tomei um frasco de aspirina, foi quando tudo aquilo que eu havia aprendido se deu sentido num jorrar de conhecimentos que vinha do fundo da minha alma, inundando o mundo com amor de criança. Eu era realmente o sol e por incrível que pareça depois desse dia eu nunca mais tive dor de cabeça (risos). 

Porém, anos depois veio à queda, encontrava-me diante da responsabilidade de preservar minha liberdade, mas fui covarde e passei a usar estimulantes para fugir da responsabilidade do destino que havia escolhido, preferindo ser sempre o pequeno polegar com minhas botas voadoras. E é por isso que eu fui para Elizabete. Não queria ser compreendido, mas sentir-me com os pés no chão. Ah! E aquela frase que eu falo no fim do filme para você: "Eu queria voar", foi o diretor que colocou em minha boca.


                                                                                                              
 Ass: Mr. Jones

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