segunda-feira, 6 de julho de 2015

SURFISMO_PE


"O jogo ideal é sem regras, sem vencedor e sem vencido. É a afirmação de todos os acasos. É o jogo do contra-senso, pois não põe um conjunto de objetos distintos, cujo agenciamento organizaria um sentido, sob o signo da boa estrela ou a boa sorte. Os objetos do jogo ideal são impessoais, não se organizam pela fórmula ganhadora que daria os dados, mas pelos lances de dados a cada vez.
O mar não tem gramática, apenas alfabeto órfão: sua única verdade é a efemeridade da verdade. Essa negação do jogo tradicional impõe a afirmação do acaso proscrito, sem aniquilar, porém, o jogo: eleva-o a sua plena potência do acaso. A onda é o acaso do surfista, como o tubo é para ele o experimento da imanência.
O surfista é a onda com a onda, e não onda sobre a onda; ele não existe apenas para aquilo que o tornará vencedor, mas se realiza afirmando o acaso; temos aqui certamente uma bela definição do ser, sempre em devir. É um puro sensitivo à escuta do meio no qual ele dança com seu corpo-onda para não "dançar" na vida. Escorregar é antes de tudo reduzir o esfregão, o caldo, a "vaca".
O surf é caracterizado pela superfície na qual se evolui, superfície que como o fora não é o exterior, mas a possibilidade de um fora/dentro, desejo maior do surfista. Ele fica à espreita do grande momento, num instante de duração não linear do tempo que tatua o corpo não com marcas visíveis, mas com um devir imperceptível que inebria a superfície de um dentro em núpcias com o fora. É o momento em que o surfista fura a onda, torna-se tubo com o tubo."

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