sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

TORNANDO-SE_O_QUE_É!

Lembro-me bem o dia em que estava ficando com idade avançada para ser alguém na sociedade, precisando urgentemente de uma saída para o mundo como forma de situar-me em mim mesmo a partir do que está fora. Havia acumulado até então, para poder acontecer esse inesperado fato, apenas pistas de bicicross e ondas do mar. Simples esportes radicais que não me deram lugar social, apenas satisfação pessoal. Mas, foi justamente aí onde o corpo é exposto em espaços suspensos com articulações não usuais, que passei a acumular experiências corpóreas vindas totalmente de fora, num acumulo de forças que estavam além da minha capacidade de percepção pelo simples fato de ainda permanecer com os olhos fechados.

O que parecia ser meros acúmulos de experiências ontológicas, na verdade, eram quantidades de força acumuladas nas praças da cidade e nos mares que irrompeu subitamente na pele ao abrir meus olhos, levando-me a enxergar até mesmo o que não se enxerga. Condição exata para um psicólogo clínico, visto que sua profissão tem a função de iluminar pontos obscuros que dificultam a vida das pessoas, principalmente nos dias de hoje uma vez que elas estão inseridas num contexto tecnológico onde a banalização de imagens virtuais dificulta ainda mais a entrada dessa luz.

Porém, a grande dificuldade hoje é que não existe mais apenas um único caminho, iluminado pela lente ocular do psicólogo a partir de sua escolha teórica. Os caminhos agora são múltiplos, versáteis, onde é preciso agenciá-los, estabelecer redes com coisas antagônicas e, o que é mais importante, saber descartar imagens que impedem a abertura de passagens. O novo psicólogo se estabelece como um educador que ensina, frente aos seus clientes, o manuseio virtual de ferramentas tecnológicas que abram caminhos na perspectiva de uma vida melhor a cada manhã, a partir da concepção teórica das abordagens psicológicas com o dom de olhar o que serve e o que não serve, para daí, alcançar, através de conceitos filosóficos atuais que denunciam pontos políticos de controles estratégicos no mundo, a ruptura precisa para se mover no caos atual. 
           

Nessa ótica, a clínica deixa de ser um lugar fixo e preestabelecido por conceitos estruturantes, localizados numa sala de um consultório qualquer, para apresentar-se como uma dinâmica dos corpos inseridos num contexto móvel e virtual que engloba todas as coisas, transformando qualquer estrutura sólida em fluxos que proporcionam passagens intensas de devires e formas imperceptíveis, onde pratica e teoria andam juntas a partir de um olho clínico que tudo vê, constituinte de uma subjetividade Ciclotron - leitura eletrônica do Ciclope. 

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