sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

ADOLESCÊNCIA: direito a morte simbólica.

A adolescência é caracterizada por um período de transição da fase infantil para a fase adulta. É nesta nova fase que ocorre a elaboração dos lutos pelo corpo infantil da identidade e dos pais infantis, onde o indivíduo vivência seus conflitos agravando-se por projeções dos desejos de seus pais e influência do meio social em que vive.

Uma fase que lança o adolescente para fora do seu tempo infantil e o obriga a entrar em um tempo estaticamente ordenado do mundo adulto, causando-lhe um colapso no que diz respeito à trágica visão de que os desejos que supostamente lhe eram prometidos se transforma em uma realidade impossível, eliminando sua identidade uma vez que ela foi constituída através do desejo do outro que são os pais infantis.

A perda da identidade fará com que o adolescente à procure no outro do outro, ocasionando uma " busca da identidade perdida " na cadeia de gerações e nas amizades, com as tendências grupais, permitindo-lhe um deslocamento do desejo para outros objetos que não sejam os pais reais, na formação da sua nova identidade que aos poucos vai se percebendo como um objeto que tem o seu lugar estático na árvore genealógica à ocupar numa continuidade das gerações familiares e consequentemente da espécie humana com uma falsa inclinação para a eternidade, onde a historia se repetirá.

Caracteriza-se, a partir de então, uma imposição da sexualidade heterossexual no que diz respeito à ocupação na cadeia de gerações, já que a conduta homossexual não ocupa lugar nenhum na imortalidade devido a não constituição hereditária da família. Se o maior conflito na adolescência é a busca de uma nova identidade e essa identidade é inscrita pelo papel sexual que o indivíduo exerce na sociedade, então o maior conflito do adolescente é a sexualidade.

Bem, não resta alternativa ao adolescente. Por mais que ele negue essa realidade imposta adiando-a, com sua rebeldia, para "Mais tarde... é agora!" que sua identidade se afirmará na ocupação do lugar do pai com a aceitação da metáfora do nome-do-pai, na constituição da sua própria família.

Espera-se do adolescente que ele abandone o que ele tem de mais sincero, sua natureza expressa na intelectualidade artística, em nome de uma "compulsão a repetição", da história, fundamentada na imortalidade do homem através da cadeia de gerações, a nível do micro (parentes) e macrocosmos familiar (o mundo).

O homem ao perceber-se castrado diante da morte, criou valores e impôs aos demais como forma de aliviar suas angustias, separando-o da natureza. Arrancou de si sua própria existência constituindo-se como um sujeito que falta um pedaço e a partir daí surge o desejo com seu motor pulsionador que o impulsiona em direção oposta à algo que lhe complete, algo completamente externo; fixo; estático; material; ilusório; anti-natural; onde a única coisa que poderia lhe completar é o que arrancou de si mesmo: a natureza com sua morte.

A aceitação da castração, implica na verdadeira instalação da metáfora do nome-do-pai, onde o adolescente ocupará o lugar do pai num sentido agora outro, de uma autonomia que lhe dá a total liberdade de poder ser a natureza com sua morte, que renasce e depois morre novamente, numa ocupação harmónica na cadeia cíclica da natureza e consequentemente a conquista de uma identidade sólida constituída através do mundo em si. O direito de morrer para renascer na fragmentação do coletivo em suas entranhas. "O mundo só não me amedrontaria se eu passasse a ser o mundo. Se eu for o mundo, não terei medo. Se a gente é o mundo, a gente é movido por um delicado radar que guia". (Clarice Lispector, 1998, p.53).

Como pode ser criativo um adulto? Que, para ocupar o lugar que lhe escolheram teve que abandonar toda sua intelectualidade artística caracterizada pela natureza, numa aceitação de um mundo criado, onde tudo já está em seu devido lugar e a sua única obrigação é manter a ordem das coisas passadas, dando continuidade ao ideal de homem "adulto" herdado por gerações a fio através de uma identificação fïlogenética constituída no Outro do Outro e do Outro...

Pobres adolescentes, que ao herdarem suas cadeiras cativas na cadeia das gerações, achando que estariam preservando um tesouro humano, não perceberam o jogo materialista que os aprisionaram numa crise loba de juízo juvenil onde o novo nunca existiu. "Mais tarde... é agora!" Que... já passou !?

Pobres crianças, viverão num passado-presente, onde o futuro é agora, devido as heranças filogenéticas imutáveis herdadas pêlos seus pais, impedindo ambos de perceberem o avanço tecnológico da ciência que personalizou os objetos e consequentemente objetou o ser humano num triunfo ao controle, provocando assim a busca desenfreada e sem escrúpulos pêlos objetos. E quem for pego roubando os objetos dos "Outros" vai para um reformatório onde lá permanece trancado sem nenhuma atividade que lhe faça perceber como "o novo", que tem muita coisa para ensinar e aprender.

Ah! O novo. O jovem pai que ao se ver rapidamente no espelho, se viu um falo e percebeu que sua existência era se enfiar em buracos e ditar leis, sendo um ser-para-o-outro, numa continuidade da moral familiar, não sabendo ele, pobre coitado, que "a verdadeira moral zomba da moral". O falo penetra então no filho como um juiz que dita à lei que proíbe o incesto com a mãe e com o próprio pai, numa formação estruturante da personalidade.

No entanto, afirma-se ai uma identidade paterna superior a tudo e a todos, agarrada a uma herança fílogenética onde a lei no futuro se voltará para a proibição do filho se tornar homem, numa oposição ao novo, visto que ele botará em risco sua identidade narcísica de homem-juiz-macho na qual foi constituída em cima de uma relação social e não pessoal.

No entanto, a história se repete porque não permitem, ao adolescente, morrer simbolicamente para renascer num novo homem provido de natureza na aceitação do crepúsculo, onde morte e vida estão tão próximos que o que nos garante de estarmos vivos é acordar toda manhã e perceber que tudo se encontra no mesmo lugar que estava ontem. E em nome de que Deus ou ideal você me proíbe de viver de acordo com a minha natureza? E para onde minha natureza me conduziria se eu simplesmente a seguisse?

Nenhum comentário: