segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A_MARCA_DE_ABEL

Sim, eu, Demian, lembro bem o dia em que tudo que acreditei sucumbiu numa fissão nuclear na mais bela visão explosiva de que tudo que acreditara tinha sido em mim colocado. Uma espécie de programação genética que tinham feito comigo, tendo como função repetir o padrão já estabelecido das coisas criadas. Foi uma sensação que primeiro começou no meu corpo, como uma contração no pênis e no ânus, espécie de autofecundação que foi subindo até chegar a cabeça e esporrar em gozos coloridos numa eliminação completa do que até então eu entendia como mundo.

Não tinha noção do acontecia comigo, mas não fiquei com medo porque no fundo eu sabia que aquilo que sentira era a mais bela expressão da beleza que um ser humano pode experiência uma explosão de todos os sentimentos numa fusão do corpo com a mente e consequentemente uma fissão nuclear do padrão genético.

Na época eu tinha quatorze anos e só não enlouqueci porque a partir de então o menor detalhe das coisas me eram perceptíveis e daí eu extraia um significado para o que me aconteceu. Um papel voando ao alcance dos meus olhos significava um símbolo de integração de cada parte de minha personalidade dissipada pela fissão nuclear.

Porém, não foi tão fácil assim quanto parece. Pois uma vez que só me era conhecido o mundo iluminado do meu lar com sua programação genética, agora me era dado o acesso do mundo obscuro com toda sua putrefação que até então toda a humanidade tem negado. Começou então uma união do escuro com o claro; do feminino com o masculino; da terra com o cosmos; da lua com o sol; e até eu me mudar, depois da morte do meu pai, para aquela cidade onde na escola eu encontrei Sinclair, muitas coisas aconteceram. Fui até o centro da terra e lá queimei no fogo da purificação, para depois voltar como a fênix renascido das cinzas. Foi como pegar a espada de Excalibur que me permitiu entrar no mundo feminino (a terra) como forma de reestruturação das células genéticas sem perder o masculino, num resgate ao principio da criação na essência do ser humano.

Pronto, a partir daí eu estava inserido no mistério da vida, e agora poderia enxergar com clareza o outro que agora fazia parte de mim, perceber os seus conflitos e ansiedades e com isso facilitá-los a perceberem todos os seus sentidos corporais remetendo-os a uma percepção sutil de si mesmos e consequentemente do mundo a sua volta, pelo simples fato de não criar nenhuma imagem preconcebida a seu respeito fazendo-me sentir apenas com o intelecto. Aquilo era uma tortura então troquei de lugar com um colega que se encontrava ao seu lado só para vê-lo e senti-lo melhor.

Tudo bem, confesso que Sinclair me causava uma atração e também sentia o mesmo dele em relação a mim. Mas, éramos muito novos para nos permitirmos a uma relação desse nível. No entanto, para mim não havia problema algum, mas para ele decerto seria violento, então para preservar sua pessoa eu me mantive neutro em relação a isso e quando nos percebemos estávamos nos separando para começarmos o cientifico em escolas diferentes.

Muito tempo se passou até nos encontrarmos para tomarmos uma caneca de vinho numa taberna qualquer perto da sua escola, onde conversamos sobre vícios, prazeres e Abraxes, que era o deus que englobava o luminoso e o obscuro, com a qual nos identificávamos e cujo símbolo era o brasão do portão de sua casa. Por fim, o percebi muito confuso e nada poderia fazer, ele estava em seu processo natural de desenvolvimento genético e também nada me falou a meu respeito em relação a sua pessoa. Despedi-me dele e fiquei inerte durante horas, por não ter tido coragem de dizer que o amava, que ele poderia confiar em mim e que estaria sempre ao seu lado.

Por ironia do destino nos encontramos pala última vez na guerra, onde após eu ter sido baleado dei-lhe um beijo na boca em nome da minha mãe Eva, que no fundo era meu! Sim, aquele beijo era meu. Te amo Sinclair!

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