quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

BEM_VINDOS_À_ERA_GLACIAL: subjetividades emergentes na contemporaneidade tecnológica.

Ao se falar em contemporaneidade é preciso parar e dar uma rápida olhada a nossa volta e perceber que vivemos numa realidade outra, nunca vivida antes. Realidade tamanha que nos faz gritar, saltar! Mas, para onde? Desta vez não há mais uma história que nos signifiquem numa árvore. Penetramos em um ponto que parecia estar guardado para os deuses, elevando o homem a uma categoria sobrenatural.
           
Ano 2003. Século: XXI. Território: pós-humano. Característica: descontinuidade do ‘EU’ pela manipulação de imagens através do descartável. Tudo parece estar em queda livre: gravidade zero; gelo; glacial. Como nós, neuróticos, iremos sobreviver a essa realidade que se constitui numa complexidade das variações múltiplas de “agenciamentos maquínicos de desejo”? Em outras palavras: com que estrutura iremos sobreviver a era tecnológica? Que mapas teremos que traçar, para nos mover no espaço virtual? Mapa!? Que esquizofrenia!. Sem dúvida alguma estamos vivendo num território novo que exige um cuidado dobrado para nós psicólogos.

Há dois anos atrás, na disciplina Teoria e Sistemas Psicológicos III, ministrada pela professora Maria Teresa Padilha, durante discussão sobre atitudes de adolescentes em relação à paixão por mudar o mundo e, o que, os impediam de realizar tal feito, deparei-me com questão genealógica significantes que os obrigam a abandonar todos os seus sonhos de transformação, reforçado externamente pela manipulação de desejos contingente que desviam o jovem do seu verdadeiro caminho, impondo-lhes um poder de coação, onde a história se repete conforme sua linearidade, ou, pelo menos tenta através de recalques tais como: Édipo, Hamlet, nome-do-pai, etc.

Diante de tais questões, elaborei um trabalho intitulado: “Adolescência: direito à morte simbólica”, morte essa que faz com que o adolescente vá além da cadeia infinita das gerações, de sua historicidade “linear”, e alcance o coletivo na mais bela expressão da natureza no homem, fazendo com que o inconsciente se transforme numa indústria de produção maquínica de abstração, estimulada por desejos realizáveis em múltiplas direções através da criação artística, como única saída para uma vida autêntica onde a história não mais se repetiria.

De volta ao presente e passado dois anos de estudos investigativos no que diz respeito à psicologia e outras áreas, percebi que a história à qual me referia com violência tamanha de mudá-la e denunciava alguns agenciamentos de poder vem sofrendo uma descontinuidade cada vez mais veloz de uns tempos atrás pra cá. Para ser mais preciso: a partir do iluminismo (conhecimento científico), ‘Narciso’ olha pela primeira vez o seu reflexo e enche os olhos de amor e glória diante de possibilidades infinitas de criação pela manipulação da natureza através das ideias científicas de Newton e Descartes, onde “tempo absoluto”, “espaço absoluto”, “causalidade absoluta” encerraram-nos e cercaram os cientistas em uma área relativamente estreita, ou seja, a superfície do espelho.

A partir daí, a história só teria sua aparente linearidade enquanto durasse o reflexo no espelho, enquanto o duplo do nosso reflexo não surgisse dando-nos um susto. A figura mitológica de Pã, aparece por traz de ‘Narciso’ anunciando que o sujeito, literalmente, já não está mais em uma superfície de territórios ‘estreitos’, estruturado. Encontra-se agora em uma região nunca habitada pelo homem – o inconsciente. Zona perigosa! Habitada por monstros e serpentes; desterritorialização que intensifica o corpo do sujeito numa espécie de júbilo infantil... Ohhh! Polimorfismo dionisíaco, fabrica em nosso corpo intensidades polífonas capturadas por um buraco negro que faz conexão com as informações tecnológicas de rádio-difusão num acúmulo de informações insuportáveis; Intensidades involuntárias que logo criam um caos em nossas cabeças, onde a inocência não cabe mais e a pergunta desabrocha na consciência: quem somos nós? Onde estamos?


Fomos completamente mergulhado num vaso hermético cheio de mercúrio, como se tivéssemos atravessado o espelho, deslocados para uma terra inumana a partir do advento da física quântica – magia, pura alquimia! Haverá ainda um recalque que nos estruture numa dimensão unificada?
           
O Um que vira Dois e depois se multiplica em vários, coloca os historiadores e, nós, psicólogos numa situação difícil de re-territorializar o sujeito a fim de lhe dá uma sobre-vida através de um novo modelo recalcado, uma vez que a tecnologia avança em áreas planas de intensidades descontínuas. Será a hora de falarmos numa pós-psicologia para podermos dá conta das novas subjetividades que estão emergindo por causa dessa fragmentação do sujeito?

O que fazer para contermos todas essas informações processadas com nossa estrutura limitada pelo recalque? No entanto, é justamente aqui: nesse furo, nesse canal, ao meu ver, que a emergência da Inteligência Artificial e a Clonagem se colocam como demanda ética pela sobrevivência da sociedade.
           
Como não há sociedade sem estrutura, e essa estrutura se constitui a partir de um recalque, fica claro que esse novo recalque virá através de uma artificialidade, uma vez que atualmente para um humano fica insuportável, eu diria até, inviável, a assimilação de tamanha informação e manipulação de ferramentas tecnológicas a partir de um recalque natural.

É preciso logo, percebermo-nos como novos homens, inumanos, sem recalques, constituintes de um processo de abstração maquínica como reflexo do social, a fim de preservarmos, ainda, nossas capacidades inatas. A partir daí, a questão é: como nos definiríamos?

É impossível, hoje, pararmos a tecnologia para tentarmos manipulá-la conscientemente através de uma análise perceptível das conseqüências presentes. Houve um tempo em que se pode fazer essa análise, mas muitas coisas estavam em jogo obrigando-nos a prosseguir rumo ao infinito.

Torna-se urgente uma percepção tecnológica interna do humano como forma de nos elevar a categoria de inumanos como meios de resistirmos a um recalque artificial onde o inconsciente é uma usina de produção maquínica agenciada pelos desejos do próprio indivíduo, não mais pelo micro poder do social, além das terras de édipo, constituído através de objetos parciais, fragmentados, em oposição aos objetos completos que nos colocam como recalque, uma vez que o recalque nos fixa num significante que nos reduz a um inconsciente rebatido em papai e mamãe, limitando nossa capacidade de darmos conta de agenciar as parafernálias industriais de criação tecnológicas.
           
Perfeitamente adaptado, o ciborgue antevê a construção de subjetividades artificiais, procurando desde já descartar postulados fixos de significantes que acumulam espaços vazios que precisam ser preenchidos com dados novos de velocidade vetorial espiralada. Porém, não se trata de abandonar por completo o passado (natureza) e viver o rumo estelar. Ao contrário, trata-se de desenhar o passado numa base e depois, pronto, alçar voo; ir para o coletivo; para as multiplicidades descontinuas da tecnologia.

Analisando essa perspectiva pós-humana, fico imaginando como ficam nossas crianças neste tempo mítico, aliás, foi justamente pensando a nível de um filósofo educador, que deparei-me com bibliografias ricas em detalhes contemporâneos. Sempre desconfie de algum ponto no processo infantil que nos coloca em um caminho ardiloso de acúmulo de significantes ‘bélicos’ de uma história de gerações contínuas, impedindo-nos de descodificar tais significantes em prol de uma vida estrategicamente autentica. Decodificação essa que permite descartar, eliminar, recortar, sobrepor significantes.

Então não seria nosso desenvolvimento completamente esquizo, como especularam Deleuze e Guattari? Uma multiplicidade versátil, onde entra alguma lei política de recalque, através do imaginário, e estabelece a unidade que nos impede o acesso à inteligência em nome do poder e do saber? Como organizar em nossas crianças uma unidade política que a signifique (porque toda estrutura tem uma função política para uma organização social, uma política não partidária mas universal), num mundo onde cada vez mais se exige dela uma multiplicidade versátil? Ela abandona o ‘calidoscópio’ em nome da unidade significante e assim fica sem ferramentas para serem usada na adolescência, quando é justamente nessa fase que o mundo exigi que ela o conquiste, ou prossegue esquizoidemente decodificando significantes, fixando-se em vários pontos de um mapa em desenvolvimento intenso? 

Pessoas que aceitem a esquizofrenia como processo de agenciamento maquínico do desejo em meio aos avanços tecnológicos, numa decodificação dos fluxos de poder que coagem e emitem desejos, é o que precisamos. Deixemos ‘Narciso’ em favor de ‘Dioniso’, até porque a crise global, hoje, é da falta de um reflexo que nos unifique (recalque universal), que nos interprete, uma vez que esse reflexo não está mais em uma superfície cristalina e estreita, mas na multiplicidade ampla dos rostos da Metrópole. É a morte de ‘Narciso’ no lago e o nascimento de ‘Dioniso’ na ação versátil dos atos, onde se deve “Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação” (Deleuze & Guattari, MP3, p. 11)
           
Analisemos, pois, o caso Tom: um garoto de doze anos que não pára de brigar na escola. É filho de um casal que se separou quando o mesmo ainda era bebê, indo morar com a avó enquanto a mãe organizava a vida de solteira, para depois casar-se de novo e trazer o pequeno Tom de volta para conviver com o seu novo padrasto. Tom o tempo todo parece jogar com a vida, busca e encontra um referencial de poder masculino, ‘Heil Hitler’, exclama ele no mais puro deliro histórico para poder agir num mundo hostil.

Tom: “Eu sei por que fiz isso. Eu, na verdade, não cuspiria na bandeira. Eu sou um bom americano. Eu tenho respeito bastante pela bandeira para não cuspir nela. Mas é isso que eu fiz. Eles me atacaram em turma e me bateram. Tinha muitos contra mim.”(Axiline, 1984, p. 41)

Tom age contra a bandeira como se de alguma forma visse no patriotismo uma guerra onde o ego se inflama diante de uma nação soberana. Se rebela contra o poder, mas não se coloca contra a sua nação alegando ser um bom americano com um ar de herói que deseja salvar a si mesmo e os outros da coação do poder, sabendo também que para isso só é possível através da obtenção de tal poder, por isso apoia-se na figura de Hitler, “A turma me atacou porque eu disse que cuspi na bandeira e disse ‘Heil Hitler’”(p.41).

Ele não tem consciência do porque ter agido assim, mas que algo da trama do desejo inconsciente lhe é perceptível, isso é. Parece saber que cada atitude sua é uma experimentação do acaso que deve ser capturada nos instantes, velozmente, longe de qualquer interpretação, afetando as pessoas a sua volta e sendo afetado por elas. “Eu poderia fazer um punhado de peças engraçadas só com as embrulhadas em que me meto. Minha autobiografia dá pra chorar” (p. 43). Corre, salta cercas, entra por passagens secretas com seus fantoches, sabe que não pode parar, procura todos os tipos de artimanhas que proporcione seu desenvolvimento. Há de se lamentar por não querer saber tanto assim na representação de sua personagem Ronny diante do pai: Ronny: “Eu sou um espertalhão? Eu odeio a min mesmo por ser um espertalhão” (p. 46).
           
A maneira como Tom manipula a complexidade de seus fantoches é inteligentíssima, onde todo instante parece armar estratégias políticas para que ninguém a roube dele, a começar pelas figuras de autoridade representadas por rostos masculinos. Tom sabe que não é burro, apenas se protege da hostilidade escolar em nome de sua autonomia.

Pai: “Se apronte e vai para escola”.
Ronny: “Eu não quero ir para a escola. Eu não gosto da escola. Além disso eu... eu... estou com dor de barriga”.
Pai: “Dor de barriga? Você é um mentiroso. Você é burro. Não aprende nada na escola”.
Ronny: “Porque é que eu não aprendo?”.
Pai: “Porque você é burro. Você é o branco mais burro que já vi”.
Ronny: “Eu não sou burro. Eu vou te mostrar. Eu vou... eu vou... eu vou... bem, eu vou...”. (Axiline, 1984, p.45)

Tom, uma criança tecnológica que tenta através de ações políticas se estabelecer num presente descontinuo frente a um passado incerto, no que diz respeito a um futuro que pode ser construído, modificado, em vista de um passado que não se altera, está lá e lá pode ficar. Calidoscópio que decodifica e sobrecodifica os significantes numa constante reelaboração de si mesmo perante o mundo, dando-lhe a percepção do que há por traz das coisas através de uma política infantil delirante, nada inocente – eis o seu mapa!


Tom: “Sabe? Eu sempre tinha um mapa mas perdi ele. (...) Eles me tomaram ele. Me expulsaram da estação. Aqueles sujos serventes me devem cinco dólares. Veja você, eu estava só um pouco atrasado e deixei escapar uns fregueses e perdi meu mapa. Mas eu não me importo. (...) Sim. É o que eu digo. Isto me deixou fulo da vida, mas por mais que eu me importe não digo para não dar o braço a torcer. (...) Sim. Eu não quero dar a eles nada que possam tirar vantagem de mim. (...) Claro. Eu sei disso. É o que eles fariam. (...) É assim que é”. (Axiline, 1984, p. 51)

Tom não se importa, porque “O mapa não reproduz um inconsciente fechado sobre ele mesmo, ele o constrói. (...) O mapa é aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível, suscetível de receber modificações constantemente” (Deleuze & Guattari, MP1, p. 22).
           
Durante os estudos de ludoterapia, observei e, foi bastante enfatizado, a constante interferência dos pais nos problemas das crianças, como se elas tivessem sempre que corresponder com as suas expectativas numa tentativa de suprir-lhes as frustrações que implicam os significantes.


No entanto, não se trata de inventar uma nova estrutura psíquica, promover surtos, rebeliões, terrorismo ou qualquer coisa do gênero, ao contrário, trata-se de nos situarmos em uma região morta de significantes, inserida num caos, povoada por subjetividades em linhas com processos de criação maquínica capitalista, esquizofrênicos revolucionários esperando por uma ajuda para construírem seus mapas, a partir do ponto em que deixamos (a racionalidade científica). Apoio esse que não se limita a instituições, mas está nas pequenas ações morais organizadoras de multiplicidade, numa reação em cadeia com toda a humanidade na construção de um mundo melhor.

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