sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

CIBERNÉTICA_E_O_ESVAZIAMENTO_DO_SUJEITO

Confesso que a cada noticiário que assisto, indago-me se ainda existe alguma estrutura ou recalque que nos signifique nesse mundo contemporâneo. De repente, numa manhã de um dia qualquer, um avião choca-se contra uma das maiores estruturas de concreto já feita na historia da construção civil mundial, anunciando que nossas certezas mais sólidas estão longe de serem inabaladas e que o fim de uma sociedade está próximo. Sim! Porque, uma sociedade se estabelece a partir de códigos que injeta uma estrutura no cidadão cuja funções lhe cabe realizar para que ‘isso’ funcione em códigos.

Os código e depois os sobre códigos, foram destruídos em nome de uma axiomática cientificista, que através da dominação das leis naturais passou a criar um mundo industrialmente artificial, colocando diante nos nossos olhos verdades concretas a partir do que se podia ver, sentir e tocar, como fronteiras fixas que logo se afrouxariam na ultrapassagem de nossas condições humanas uma vez criadas sob o jugo dos códigos e sobre códigos. A axiomática cientifica, dá lugar a um novo tipo de sociedade que agora se estabelece através de verdades que a todo instante estão se deslocando para outras verdades num misto de realidade e virtualidade que vai além da capacidade humana de assimilação territorial.

Longe de estarmos seguros diante dessas desterritorializações axiomáticas causadoras de incertezas e na tentativa de preservar nossas capacidades humana, a sociedade cria um modelo de cidadão consciente de seus atos, constituídos a partir de funções voltadas para criação dessa nova sociedade, não importando se o que se fazia era bom ou mal, mas o importante é que condizia com a axiomática da construção de um novo mundo a partir do sujeito.

Porém, não bastava só a axiomática pedagógica para que o cidadão, tornado sujeito, pudesse se sentir bem nas desterritorializações que o desumanizava, era preciso criar uma nova ciência que respaldasse os comportamentos futuros desse sujeito para assim avançarmos nessa construção. Eis que surge então a Psicologia com suas respectivas escolas: Funcionalismo: “como ‘isso’ funciona?”; Estruturalismo: “como ‘isso’ se estrutura?”; Behaviorismo: “estrutura-se a partir de princípios pavlovianos”; Psicanálise: “estrutura-se de um recalque – Édipo”; Humanismo: “abaixo o racionalismo. O que importa são os sentimentos dos enunciados linguísticos”; Pós-estruturalismo: “não há estrutura, apenas um processo híbrido de humanos e máquinas”.

A ideia é que estávamos diante de uma nova sociedade que não iria parar de crescer diante das múltiplas possibilidade de invenção industrial passível de um possível caos, onde as escolas psicológicas vão introduzindo estudos gradualmente modelados de acordo com os avanços axiomáticos da ciência num sentido de estabelecer um poder sobre a variável.

Tudo ia bem, na América, com o behaviorismo concebido como a escola mais eficaz, até o momento em que fluxos desterritorializados são deixados escapar pela boca de um filólogo chamado Nietzsche, pondo abaixo, não só os conceitos axiomáticos da escola behaviorista, mas denunciando as desterritorializações científicas que se achavam mergulhadas no campo da incerteza, inserindo na filosofia o conceito de inconsciente, antecipando descobertas de cientistas como: Groddeck e Freud.

Ao mesmo tempo que Nietzsche faz escorrer os fluxos desterritorializados da axiomática social de um sujeito critico a um autômato e irracional, antevê que, o sujeito, ao torna-se consciente do que realmente lhe acontecia, teria que passar à categoria de Super-homem na tentativa de suportar as tamanhas desterritorializações e re-territorializações que a sociedade moderna havia criado através da manipulação das ferramentas industriais, elevando o homem à categoria de máquina, abandonando completamente seu lado humano.

Toda a teoria do sujeito crítico, consciente, vai a baixo com a descoberta do inconsciente que, mais tarde, seria a ciência que viria a baixo com o advento da física quântica, onde se nós já trabalhávamos, com a física clássica, em cima de desterritorializações e re-territorializações que nos davam uma ‘certeza’ das nossas capacidades humanas e sociais, imaginem agora com a manipulação do invisível através das partículas de quanta de energia! É como se o virtual tornasse realidade. A morte se espalha anunciando que já não somos mais ‘isso’ (humanos), nem ‘aquilo’ (máquinas). A incerteza toma conta da certeza científica..... O caos parece tomar conta da ciência que não vai parar, mas avançar com a velocidade da luz na regulação dos fluxos desterritorializados na criação de axiomas, agora, atômicos.

Com o advento da escola psicanalítica através do inconsciente, somada a escola behaviorista do condicionamento reflexo, o que mais será preciso para regular os fluxos desterritorializados dos novos axiomas atômicos em relação aos nossos corpos rumo ao tão sonhado desenvolvimento capitalista?



“Será preciso que pai e filho se formem, isto é, que a tríade real ‘se masculinize’, e isso como uma consequência direta da divida infinita, agora interiorizada. Será preciso que Édipo-déspota seja substituído por Édipos-súditos, Édipos-submissos, Édipos-pais e Édipos-filhos. Será preciso que todas as operações formais sejam retomadas em um campo social decodificado, e ressoem no elemento puro e privado da interioridade, da reprodução interior. Será preciso que aparelho repressão-recalcamento sofra uma completa reorganização. Será preciso, portanto, que o desejo, tendo acabado sua migração, conheça essa miséria extrema: ser voltado contra si mesmo, a volta contra si mesmo, a má consciência, a culpabilidade que o amarra ao campo social mais decodificado, como também à interioridade mais doentia, a armadilha do desejo, sua planta venenosa.” (Deleuze & Guattari, 1976, p.274/275)

Como não há mais estrutura, todo preço será bem pago a fim de que o sócios sobreviva. Então, retomemos o lance da jogada: final do século XIX e inicio do século XX. Os Estados Unidos crescia de vento em poupa com sua escola behaviorista construindo um sujeito que a princípio era vazio para depois ser preenchido com estímulos  e respostas as mais variadas possíveis no que diz respeito à produção e consumo, moldando-o de acordo com os interesses políticos de um país que aspirava desenvolvimento monetário e consequentemente industrial. Depois, sabe-se que na Europa um neurologista chamado Freud, havia desenvolvido uma teoria do sujeito inconsciente de estrutura recalcada pelos desejos parentais, denominado de complexo de Édipo. É sabido, portanto, que “por muito tempo, na França, sobretudo – país de tradição racionalista – , a psicanálise, terapêutica do mistério, foi banida do corpo médico. Considerada no limite do ocultismo e do charlatanismo, ela foi recusada nos hospitais psiquiátricos até a segunda guerra mundial” (Desanti in Planeta, 1975, n31, p.67), por falta de provas cientificamente concretas uma vez que ela luta até hoje para se tornar ciência, classificando-se na categoria de metapsicologia.

Bom, o fato é que os Estados Unidos da América, não ligava muito para estas questões de rigor científico, vendo nas ideias de Freud um recalque possível de ser experimentado na escola behaviorista, uma vez que agora podia-se condicionar os desejos dos sujeitos a partir de estímulos que se sabia a resposta de acordo com as suas ideias: “Bernard Pingaud relata que quando Freud foi acolhido, triunfalmente, nos Estados Unidos, pronunciou uma frase que ficou célebre: ‘Esta gente não suspeita que eu lhes trago a peste’” (Planeta, Setembro de 1974, n25, p.20). Que ingenuidade, a de Freud, achar que os Estados Unidos não suspeitava a dimensão perigosa de suas ideias, sendo justamente aí, nesse perigo, o seu maior interesse para construção de um Império. 

Enquanto a Europa rejeitava a irracionalidade das ideias de Freud e avançavam nas racionais axiomáticas cientificas da nova física atômica, os Estados Unidos, com a psicanálise e o behaviorismo, elaboravam uma axiomática aparentemente ‘racional’, uma vez que a psicanálise tornava consciente o que estava inconsciente e assim assistiam de camarote o eclodir da segunda guerra mundial pela Alemanha que reivindicava uma raça pura, encontrando-se dominada pelos mistos das desterritorializações e re-territorializações dos axiomas do mundo moderno, ameaçando sua identidade somado a humilhação da derrota da primeira guerra.

Enquanto a Alemanha expulsava seus melhores cientistas atômicos, do país, os Estados Unidos os acolhiam muito bem, preparando-se para entrarem na guerra como um aliado bem estruturado com as novas ideias do mundo pós-moderno. Nota-se que desde o começo da nova física é os Estados Unidos o país mais bem preparado para o novo.
Com o advento da física moderna através da queda dos antigos alicerces da física clássica e a rejeição da psicanálise, ficou difícil para a Europa regular os fluxos de desterritorialização axiomáticos, cabendo à psicanálise junto ao behaviorismo uma eficaz regulação desses fluxos através das produções desejantes, estruturando os cidadãos para os avanços de uma vida baseada no novo paradigma tecnológico da física moderna, criando um novo estilo de vida – “American Life”. Uma vida baseada nas realizações de sonhos, a partir dos consumos de matéria prima na qual substituía os desejos primários, intensificados pela manipulação de imagens através dos aparelhos eletroeletrônicos sob o comando da mídia publicitária na propagação do fenômeno de massa. 

Porém com a explosão da bomba atômica em Hiroxima e Nagazaki, a sociedade passa a questionar às ideias da racionalidade científica, que havia criado uma bomba de destruição em massa! A partir de agora tudo poderia acontecer! É chegada a hora de negar as axiomáticas científicas em nome da vida; Psicanalistas conceituados rompem com a psicanálise; o LSD surge como um resgate as sensações corporais esquecidas pela industrialização; o caos se espalha novamente fazendo com que cada sujeito passe a reivindicar seus direitos, não aceitando mais que digam quem são, onde a partir das suas experiências empíricas perceberam o fato de existir – nascem os monstros.

O corpo do cidadão é atravessado por desejos realizáveis no que diz respeito à axiomática de estilização dos prazeres – “American Life”: ‘não fique triste por não poder ter papai ou mamãe, você pode deslocar esse seu desejo por um carro do ano! Ou se preferir por lindas Go Go Girl, e assim por diante, tereis todos os desejos que sonhas’!  Atravessado por esses desejos, o corpo do monstro fica numa bifurcação sem saber onde e quando isso realmente começou e que destino seguir, que desejos quer realizar, fugindo a qualquer tipo de significante,  inserindo-o numa confusão que o descaracteriza como humano. É! Porque o que nos caracteriza como humanos é, do ponto vista histórico, a colocação de um recalque que nos limita num espaço em relação ao outro humano, fazendo-nos conviver com harmonia em sociedade. Mas, o que acontece quando esse recalque é removido a partir das realizações proibidas num sentido extra-sensorial através da manipulação das imagens de TV? Mas o interessante nisso tudo é que os Estados Unidos, descobriu que esse desmantelo na estrutura do cidadão fazia com que ele consumisse e produzisse muito mais, numa espécie de ontologia que nos caracteriza: esquizofrênicos.

Para Deleuze e Guattari, toda essa confusão só nos fez mostrar quem realmente somos: uma mistura de máquina e humano, em suma, máquinas desejantes, uma espécie híbrida. Mérito, por sinal, que eles atribuem a Freud, mas o criticam por, Freud, ter fechado a indústria de produção maquínica, do inconsciente dessas máquinas, em um eterno consumo de papai e mamãe e nada mais, relegando o esquizo a um ‘mero trapo autista’, onde a esquizofrenia como entidade clinica, enfermidade, é a negação desse processo de hibridação industrial paralisado pelos significantes edípicos.

De fato, o capitalismo alcançou o seu auge na contradição, preenchendo o corpo do cidadão de poderes através das imagens publicitárias que alcançou uma proporção mundial na constatação da globalização, como se todo o mundo tivesse se curvado diante das imagens causadoras de um condicionamento desejante, onde países que ainda resistem a essa contradição, ameaçam-no numa guerra eminente como se a contradição estivesse chegado ao limite.

Outro fato é que já estamos em pleno século XXI, e estas contradições não param de crescer assustadoramente, onde a axiomática: Édipo, encontra-se saturada. Vemos isso todos os dias nos noticiários da TV (filhos matam pais), onde a década de noventa anunciou a chegada definitiva de uma nova cultura – a tecnocultura – com suas músicas eletrônicas rompendo radicalmente com o infantilismo neo-hippie do rock-em-roll; a internet e os celulares destruindo qualquer noção de tempo e espaço entre os seres humanos; até uma teoria indicando que foi uma década de percepção e fabricação dos cidadãos como ciborgues: corpos se eletrificam, onde uma geração inteira nasce sobre satélites no espaço que passam a fazer parte de suas vidas através de aparelhos de radiodifusão.

O Psicólogo Roberto Freire escreveu um romance de cunho cientifico a esse respeito. Tinha como fundo a investigação de uma personalidade esquizofrênica em processo, da qual ele chamou de coiote, onde faz alusão ao animal como forma de liberação da energia tecnológica contida nos corpos dessa geração: 



“ Doutor Flugel, André é um protomutante... o senhor sabe o que é isso, não? Antes pensávamos que fosse um menino doente, um caso neurológico grave e raro. Mas os maiores especialistas do mundo nos tranquilizaram. Dentro de um conceito moderno e não reacionário de normalidade, André é sadio, porém faz parte dos primeiros seres humanos de nossa civilização atual a evidenciarem mudanças radicais no comportamento da espécie... mutações...mutações emocionais e culturais.
 Quando estive trabalhando em Gainesville, na Universidade da Florida, conheci um professor de Filosofia, um homem extraordinário, apaixonado e lúcido, coisas difíceis de andar juntas na mesma pessoa. Chama-se Thomas Hanna. Teve oportunidade de conviver quase um ano com André, tornaram-se amigos. Hanna, quando tinha estado no México, em Guadalajara, em 1969, escreveu um livro muito instigante a respeito dos protomutantes. Chama-se Corpos em revolta. Ele identificou em André o exemplo mais completo e acabado dos jovens protomutantes culturais e emocionais que estavam surgindo no mundo.
 Mas, claro, doutor, tudo isso tem uma explicação. É bastante simples: despendendo uma enorme quantidade de energia agressiva, os homem conseguiram finalmente criar um novo ambiente, um ambiente tecnológico que construiu e transformou a terra em lugar que já não ignora a existência e as necessidades do homem, mas que as suporta decididamente. Por outro lado, as enormes quantidades de energias libertadas por esse ambiente estão criando um novo tipo de homem, os Andrés, os mutantes culturais”. (Freire, 1986, p.154/155)


No contexto atual da clínica, em que me encontro trabalhando com crianças, elas, as crianças, vêm à clínica com diagnósticos diversos, em que, um dos mais frequentes são o de hiperatividade. Daí a pergunta: elas são mesmo hiperativas ou apenas estão captando a energia, cada vez mais densa, da tecnologia? É sabido, até, que o termo etimológico do diagnóstico hiperatividade foi ampliado para dar conta de uma hiperatividade sem comprometimento neurológico, apresentado pelas crianças na atualidade.

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