quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

ELOGIO_DA_LOUCURA: Releitura Fenomenológica sobre a Loucura de Erasmo de Rotterdam 492 anos depois.

Em meio a uma época em transição da era pagã feudal europeia para um período de Renascença, pretendia-se resgatar os pensamentos e valores da “antiguidade clássica” que através da tragédia representavam o conhecimento da natureza divina. O homem como "medida de todas as coisas" se opõe ao pensamento medieval, onde Deus é a medida de todas as coisas, tendo por tanto que agir de acordo com as normas e padrões estabelecido por ele, numa repressão aos instintos naturais das experiências pessoais da qual se extraia o conhecimento na antiguidade clássica.

Erasmo de Rotterdam que teve uma carreira religiosa em ascensão chegando a secretário do bispo de Cambrai obtendo permissão para ir estudar em Paris, onde recebeu o grau de doutor em teologia, conhece a fundo a instituição papal na qual, ao decorrer da sua carreira, observa uma tamanha hipocrisia no que diz respeito ao comportamento imposto por Deus, através do papado, e o que realmente regia a instituição. Como reprimir os instintos se é ele que nos move? - se pergunta ele. Passa, então, toda sua carreira religiosa observando o comportamento dos seus superiores, fazendo analogias com o que encontrava em si mesmo como reflexo, numa percepção reveladora da verdade.

Tais observações vão-lhe adquirindo liberdade para uma compreensão mais humana da vida e consequentemente da realidade a sua volta, lavando-o a se preocupar em reformular alguns textos sagrados num resgate a natureza humana. Porém, só encontrará real liberdade para prosseguir com suas ideias após a dispensa papal da obediência aos costumes e estatutos do Convento de Steyn. Eis, então, que surge: Elogio da Loucura, como responsabilidade perante a coragem de sua liberdade de escolha na reformulação dos conceitos humanos com a qual põe a própria Loucura para criticar o comportamento dos homens, numa preservação de sua identidade a quem pretende atingir.

A Loucura denuncia no homem à negação dos instintos como experiência estética para se extrair a verdade das coisas. Tal feito seria impossível uma vez que os instintos cabem a todo gênero humano. A afirmação dos instintos na Loucura resultaria em um comportamento, ao menos uma vez, diferente do que é imposto e representado pela Igreja e o Estado através das leis de Deus. Poderia o homem suportar a si mesmo em seu comportamento cotidiano sem uma dose de loucura? Claro que não,

A Loucura se apresenta então como um Seín, a essência contida em todos os entes, em todas as coisas, mas, que só através do Dasein (o homem possuidor da linguagem) ela poderá ser expressa e ter vida. A essência toma carona na linguagem do homem e grita por vida. Porém só a loucura para lhe dar coragem abrindo seus olhos diante da responsabilidade de uma vida mais plena e natural.

Os sábios inquisidores para Loucura não passam de pessoas pessimistas em relação à vida, acostumados a pensarem desde cedo sobre o ponto de vista do que lêem perdem ligação com sua essência tornando-se velhos e insuportáveis como possuidores supremos da verdade e privam-se dos instintos num ato de repulsa ao humor da vida. E apesar de saberem da verdade não estão de acordo com o processo da natureza no que diz respeito que há algo de não-ser em si.

Parece-me que para todo momento de transição, aqui no caso, feudalismo para o capitalismo, é preciso inspirar nas pessoas seus instintos para que possam extrair deles um novo sentido à existência através das experiências pessoais que jamais se repetem, ou seja, um estágio “estético” e para que este estágio não caia em fugacidade a pessoa se depara com a “ética” que seriam as leis sociais e religiosas já impostas, tornando-se livre nos limites estabelecidos, cabendo à “fé” em si mesmo o passaporte para a liberdade suprema numa aceitação da lei ética e social sem perder suas vivências autenticas numa autoafirmação “moral” perante a liberdade.

Bom, nesse caso Erasmo através da loucura inspira um estágio “estético” como forma das pessoas se libertarem dos costumes pagãos da época, preocupando-se logo de imediato em reformular as escrituras sagradas para uma nova “ética” que colocaria a sociedade em uma nova organização de “fé” e autenticidade “moral”. Portanto, não exitando em clamar a ignorância e a felicidade como algo louvável em oposição à sabedoria vigente da época.

Há nas ideias de Rotterdam, através da Loucura, uma espécie de culto à criança eterna, onde a vida seria mais feliz se nos entregássemos aos nossos instintos e não tomássemos consciência das coisas em si. Pois, não sabe ele que é através dos instintos que o homem adquire a sabedoria também? Tudo bem que para uma época em transição é urgente que as pessoas sejam loucas e se entreguem as suas experiências “estéticas” como um grande salto, convictas no seu ponto de vista.

Mas, como evitar a queda na tomada de consciência sobre a morte!? Até quando a Loucura suportaria sustentar sua infância e esconder o seu lado obscuro, o do crescimento com sua dor e principalmente o perecimento no nada? Viver o não-ser, porém sem consciência de sua existência na mais pura inocência de que um dia a vida não vai acabar, a isso eu chamo loucura, e ao nega-la sobre padrões de comportamento que não me dão direito de viver a natureza, permito-me só no meu velório comemorar enlouquecidamente a vida que não vivi. Mas e a Loucura, como ver a morte? Eu respondo: A CURA!

A escolha de liberdade da era medieval pagã para uma renascença, implicou numa responsabilidade estética como forma primeira de mudança, favorecendo a burguesia mercantil, através do abandono à idealização medieval da pobreza, do celibato e da solidão, e em seu lugar destacaram a vida familiar e o uso judicioso da riqueza. Com isso, foi dado ao homem o conhecimento e a representação da natureza nos mistérios do universo proporcionando processos racionais e científicos, mas assim que disto provardes, terás de morrer. É o pecado de Adão que faz parte do drama da criação.

Essa morte faz parte da consciência do “não-ser” no homem, “ser” e “não-ser” fazem parte do mesmo contexto do gênero humano, pulsão de vida e pulsão de morte. Ou seja, ao mesmo tempo em que sou livre não o sou também porque a morte é inevitável. Diante de tal absurdo o homem tratou logo de dominar os fenômenos da natureza como uma forma de controlar o seu destino e se eternizar no “ser”, numa negação inconsciente do “não-ser”.

A estética burguesa atingiu, aos poucos, valores universais que inconscientemente a ansiedade do destino de morte foi aliviada, mas começaria a partir daí toda uma luta contra a natureza num processo de eternização da espécie humana na negação do “não-ser”, sendo que para isso o estágio “estético” foi mantido até hoje, promovendo uma eterna aurora infantil numa sociedade sem “ética” e consequentemente sem “fé”, onde o que consumimos são, nada mais nada menos, "super-brinquedos" que tem como fim aliviar a angustia diante da insignificância do ser frente ao nada na imagem do "adulto". Percorremos o lado luminoso do ser através da loucura, e agora será inevitável que nos tornemos sábios na tomada de consciência do lado escuro do “não-ser” que teremos de encarar:

L ou Cura? Pois bem, vou-lhes dizer quem sou. Sou tudo que vocês, inconscientemente, negam até hoje; sou a vida na sua mais agressiva vontade de viver, de poder ser o nome-do-pai. Matei-o e comi da sua carne e bebi do seu sangue, e não tenho culpa! É a seleção natural.

Há muito tempo já deixei de ser criança. Na idade media eu voz divertia com minha criança, mas, agora a selva é outra, ela tem luzes e pontes que quase tocam no céu. É por isso que há muito tempo deixei de ser. Agora só uso a Loucura para construção de armas e enquanto isso voz proporciono a imagem de um velho sábio, porém com muita diferença no que diz respeito a pensar só sobre o pensamento do que estou lendo, onde acaba por perder totalmente a faculdade de pensar por si. Isso me tornaria cego para o menino que está sempre renascendo.

Sou o deus Dioniso a andar pelos corredores das instituições com o corpo livre na pele daquele que teve coragem de ser menino. Só que agora não há mais tempo para brincar, nem pedir desculpas, é preciso ser forte para manter o reflexo polido de ser o que todo mundo gostaria de ser, mas por vergonha e repulsa perante o ato de tocar volta-se numa atitude violentamente egoísta perante a vida na terra na culpa filogenética do incesto. Por isso sou a CURA e lhes digo que só através do resgate do menino perdido no adulto ferido, os ditos homens se tornarão homens.

Resistam até onde poderem aguentar com suas esquizofrenias diante de algo que já se sabe, mas insistem em negar – o copo infantil, fantasmático! Oh! Mas, o corpo infantil é bissexual! Iram dizer vocês. Pois é isso mesmo –  o andrógino! O olhar para traz num resgate ao corpo, como suporte à queda, nem que para isso eu tenha que aceitar nossa parte contrassexual..... A isso eu chamo coragem!

À agressividade e à sexualidade como potência impulsão para frente, destrói o muro e ver a verdade, triste visão – o nada! Teremos que reconstruir o mundo e para isso, vou-lhes refletindo em mim, causando uma espécie de repulsa às suas pulsões, fazendo-me cada vez mais sábio e criativo no processo de Cura da humanidade. E sabe para que as armas? Para me proteger do inimigo que ninguém ver, só sente e sem perceber pensa por nós.

Enquanto a criança inventa, o velho pensa. Procura as passagens mais estreitas e vai se instalando aos poucos. Parece estar tudo parado, mas ei que a teia vibra sem parar, vibra a Cura no coração enquanto a culpa envenena a vibração. Não há mais tempo para a culpa, não deve-se pedir desculpas por ser um Existenz que abriga a Cura no Sein do seu Ente. Não tenho culpa de Deus ser a essência da conscientização humana na temporalidade da existência.

Sou a mais pura conscientização humana lançada no tempo-espaço como seta apontada para o alvo que pacientemente espera saber atingir à essência a cada meio-dia e por do sol. Não há meio-dias sem crepúsculos, assim como não há futuro sem passado. Só eu mesma, a Loucura, no passado, para manter os homens na ignorância, na irreflexão, no esquecimento dos males passados protegendo-os da verdade. Mas, ei que chega a Cura dos males com sua vontade de verdade e revela aos homens à sabedoria através da criança.

Antigamente a sabedoria negava sua criança, sua criatividade, se era que tinha, abandonando-a junto aos estercos dos cavalos pensando assim alcançar berços esplendidos e dourados, cabendo à Loucura intervir com "águas do esquecimento" e infantilidades mil na preservação da natureza humana. Agora a realidade é outra, será revelada a criança abandonada que envolto em tempestades, decepada, entre os dentes segura a primavera na imagem do novo homem.

Quem tem consciência para ter coragem? Quem tem a força de saber que existe e no centro da própria engrenagem inventa a contra-mola que resiste ao velho? Não se pode confundir entre o velho sábio que nega à natureza com o novo que é a própria natureza, assim como não podemos também confundir a Loucura em seus devaneios com a Cura na responsabilidade de escolha da liberdade, onde a historia não mais se repetirá numa aceitação consciente do não-ser no ser.

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