domingo, 5 de fevereiro de 2017

O_CONFESSIONÁRIO_DE_LAJOS

Mais uma vez, eu, Lajos, o brilhante, conseguira o que queria. Após vinte anos andando pelo mundo sugando a vida desses seres humanos medíocres e fracos diante de mim, inocentes diante de si mesmos com olhos de vidros pedindo-me, suplicando-me por carinho, segurança e amor, não exitando em me dar tudo de material a que pertenciam, por um pouco momento de vida na alma através do meu caráter sólido e brincalhão, como se algo em mim os penetrassem preenchendo um vazio que até então não percebiam e quando parto restam-lhes apenas a consciência de si mesmos como fracos que precisavam de mais uma dose de mim para poderem sobreviver, volto de onde parti para levar o que me é de direito.

Tudo começou no útero materno quando os primeiros acordes da sociedade começaram a penetrar-me o pensamento. Um mundo cheio de ódio, faminto por amor, um verdadeiro campo de batalha a qual estaria preste a enfrentar. Sentia isso cada vez que meu pai penetrava minha mãe com violência e insensibilidade tamanha de estar apenas cumprindo uma função social de macho. Ao contrário disso fui muito nutrido pelo amor e carinho da minha mãe, suas cócegas em meu corpo faziam-me sentir o mundo com muito amor, bastante diferente do que eu havia percebido em seu útero. Mas logo fui percebendo, devido a postura do meu Pai, o quanto o homem tem que ser forte, rígido: sem alma. Enquanto a mulher: frágil, indefesa: com alma. Ter alma eram para os fracos.

Tratei logo de abafar o amor que havia sido nutrido em mim por uma postura moral a qual deveria honrar em nome do Senhor que rege o jogo da vida: O Senhor dos Anéis da cadeia infinita de gerações nuclear. Dessa forma foi-me revelado o segredo do jogo: o medo da morte! Tal jogo tem como regra vencer a morte a qualquer custo como se a velhice não existisse. Temendo a morte os seres humanos se encontram extremamente dependentes uns dos outros, temem a solidão, externam suas carências, anseiam por um amor que os possam ampará-los diante da maior certeza da vida... Da mesma forma que são com os objetos, ou seja, fáceis de serem enganados e roubados com mentiras chulas.

A parti daí estariam prontos para serem manipulados por mim, tirando-lhes os objetos e as pessoas que os fazem sentir-se vivos numa sutil percepção de que tudo que está ao seu redor são ilusões que os acalmam diante do vazio da morte através dos meus olhos e da expressão do meu corpo. Olhos de quem não teme a morte, expressão corporal de quem é livre de pessoas e objetos. Dou-lhes segurança e tiro-lhes os objetos na mais alta certeza de que já estão mortos e assim poderem sentir um leve gostinho da vida em mim. Ora, isso porque o verdadeiro sentido da vida é vencer a morte, então no fundo estou lhes prestando um favor.

Nasci numa cidadezinha do interior de Londres chamada Buganvília, na qual fui crescendo com toda essa percepção inconsciente, preparando o terreno para amordaçar minhas primeiras vítimas, que não tardou muito para eu perceber em uma bela donzela toda a pureza celestial perfeita para inseri-la na minha natureza terrestre. Seu nome era Eszter, filha de pais simples que moravam em uma casinha muito aconchegante nos arredores da cidade dona de um jardim belíssimo, irmã de Vilma, a mais velha, e irmão de Laci o mais novo. Não foi difícil me aproximar deles com o meu jeito extrovertido e logo despertar o interesse de Eszter e Vilma por mim, assim como o respeito e o carisma de Laci e dos seus pais, ficando a desejar o carisma da governanta Nunu, que me olhava com bastante desconfiança.

Nessa época eu estava com uns 22 anos, Vilma deveria ter uns 25, Eszter o mesmo que eu e Laci uns 19. Todos me adoravam porque eu sabia exatamente o que todos precisavam e atendia-os com minhas incenações cinematográficas, com especialidade de diretor e ator que sabe exatamente se enquadrar nos olhos dos outros. Uma vida de video-tapes cheia de mentiras que os confortavam achando que tudo aquilo era a mais pura verdade transmitida através de uma radiação que os fascinavam... Assim, como a vida tem que ser.

E o que é essa vida se não um jogo de imagens em que temos que acreditar para nos sentirmos diferentes dos animais e consequentemente imortais! Dou-lhes a vida através dos meus olhos e os liberto de si mesmos em meu corpo e em troca roubo-lhes a alma porque ao mesmo tempo os remeto a incapacidade de serem eles mesmos. Nutrem-me com suas ilusões tornando-me cada vez mais cheio de juventude ao passo que não podem mais viver sem essa imagem e ao ir embora levo comigo suas almas. Os objetos, dinheiro e assinatura de procurações em meu nome que induzi o pai de Eszter a assinar, não é nada comparado às suas almas. Dão-me como forma de permanecerem com suas almas na incapacidade de me verem partir lavando-as. " Por favor Lajos não nos deixe, daremos tudo o que você quiser!".

Os olhos castanhos de Eszter me fascinavam a ponto de devorá-los. Ficava-mos nos olhando num romance delicado de uma virgem que deve ser cuidadosamente conduzida pelo seu príncipe, enquanto que sua irmã, Vilma, me tirava de tempo com ferocidade de uma fêmea que quer copular com o seu macho, não deixando espaço para a meiguice de Eszter. O romance com Eszter foi deixado pela virilidade de Vilma que me cercou de todos os lados chegando a nos casar. Pela primeira vez eu, Lajos, fraquejava diante de uma mulher impetuosa e decidida, deixando Eszter no completo vazio. Na véspera do casamento com Vilma escrevi umas cartas pedindo para que Eszter vinhesse ao meu encontro e me salvasse das garras de sua irmã, porém não tive coragem de envia-las porque eu não poderia fraquejar naquele momento e acabei me casando com Vilma.

Porém, aconteceu o esperado. Tivemos uma filha ao qual demos o nome de Olga, mas eu não conseguia conviver com o caráter independente de Vilma que a todo instante me sufocava. Então tratei logo de me livrar dela, que aos poucos fui a envenenando até adoecê-la bastante a ponto de morrer e o que restou desse casamento além da minha filha foi um anel de brasão da família que, antes de devolve-lo a Eszter como uma forma de garantir uma segurança para ela e Nunu, pois naquela altura do jogo já não tinham mais os pais e a renda tinha caído bastante, tratei de tirar todo o seu valor e o reconstitui com pedras falsas, entregando-o nas mãos de Eszter como uma forma também de me despedir, porque depois de muitas promessas e juras de mentiras a cidade já não me cabia mais um lugar.

Fui embora da cidade levando comigo muitas almas, mas a que mais me alimentava era a de Eszter com os seus olhinhos de inocência castanha. Durante esses vinte anos que estive fora nunca permaneci num mesmo lugar, casei-me com uma mulher que já tinha um filho, deixava o lar e viajava pelo mundo e voltava quando achava que era a hora, deixando transparecer para a minha filha o quanto é importante sermos livres, desprendidos dos materiais e das pessoas para podermos vencer a guerra.

Foi então que em uma dessas minhas viagens eu percebi o que estava procurando: uma alma que me rejuvenescesse, porém já nenhuma mais me surtia efeito, foi então que me veio a ideia de voltar a Buganvília para pegar a casa de Eszter como uma forma de me sentir vivo. Em contrapartida eu levaria Eszter comigo que logo em seguida a botaria em um abrigo devido a sua incapacidade de conviver com minha família e assim mais uma vez eu triunfaria.

Lembro-me bem o dia em que cheguei na cidade, após ter enviado aviso de que iria com minha filha Olga, minha atual esposa e o filho e, em convite formal enviei ao escriturário Endre para que ele providenciasse os papéis ao qual Eszter deveria assinar para me passar a casa. Ao chegarmos na casa de Eszter, estavam todos reunidos como eu havia planejado e ao me verem, seus olhos brilhavam de saudades de suas almas, mas eu já não era mais o mesmo e mesmo assim fiz de tudo para não perder a pose, em nome da alegria dos meus espectadores, com exceção de Endre, que nunca caiu em minhas conversas, Nunu e para a minha surpresa, Eszter. Como não a subestimei trouxe duas carta na manga, a primeira para Nunu: uma carta formal e autenticada prometendo uma possível vaga de emprego na Receita Federal, coisa que eu há muito prometera e nunca cumprira; e a segunda para Eszter: as cartas da véspera do meu casamento com Vilma.

Festivo como sempre fui, nos receberam muito bem e fui logo entregando a carta a Nunu que ficou sem palavras, e assim fui fazendo o meu velho espetáculo, depois dei uma volta com Eszter pelo jardim e notei que minha pessoa já não surtia mais nenhum efeito sobre ela, me tratou com indiferença como se soubesse cada passo meu. Depois do lanche dei um cochilo no quarto, já em clima de que a casa era minha e para que as coisas não parecessem tão frias preparei Olga com as cartas que nunca havia mandado para Eszter como uma forma de sensibilizá-la e, é claro que Olga estava crente que eu as havia mandado e que não chegara porque a mãe havia pego primeiro. Eszter ficou sensibilizada com as cartas e com tudo o que dissera em relação a elas, mas apesar de ter se comovido não demostrou nenhuma expressão com minhas intenções e aceitou sem problemas o repasse da casa para meu nome e nem se quer às abriu. Eu, Olga, minha esposa e filho, partimos pela manhã com o intuito de depois voltarmos para buscar Eszter e Nunu.

Dias depois eu recebo a notícia de que Eszter havia morrido dormindo naquela mesma noite após os acertos de contas, foi a partir daí que eu percebi o verdadeiro motivo de não ter enviado aquelas cartas. A alma de Eszter estava viva em mim. O vazio dos seus olhos rejuvenesciam-me e alimentavam-me. Então eu não poderia preenche-los ao assumir um verdadeiro relacionamento com ela, isso me aniquilaria. Eu dependo do seu sofrimento, também do sofrimento dos outros, mas o de Eszter me era vital.

Muito tempo se passou e hoje, começando a ficar velho e chegado o fundo do poço, percebi que durante todo esse tempo o que me manteve jovem não foram às pessoas pela qual sugei suas vidas, mas urna pessoa, uma única pessoa. Sua alma viva dentro de mim me deu coragem durante esses últimos vinte anos da minha vida e agora com sua morte temo a putrefação. No fundo eu era também incapaz de ser eu mesmo e para isso era preciso massacrar a mulher que me refletia em seus olhos, como forma de não aceitar algo que existe dentro de mim. Eu próprio temia o perigo nas aventura, sejam elas políticas ou afetivas, lançava-me com alarde, mas com armas secretas, mentiras premeditadas, as costas quentes, um estojo de maquiagem no bolso e as cartas escandalosas do inimigo que guardara. Sim, hoje, aqui, com 80 anos vejo a morte ao meu lado e a temo por ter perdido minha verdadeira essência em nome de uma conduta moral de homem que tem que abandonar a si mesmo para ser aceito no jogo da vida. Abandonar a essência feminina da alma e para se sentir vivo roubar de quem as tem.

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