quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

SE_NARCISO_NÃO_CAI_NO_LAGO,_O_LAGO_CAI_SOBRE_NARCISO!

Através do mito de Narciso e referencias a teoria fenomenológica de Kierkegaard, é possível analisar o salto que a humanidade deu, do ponto de vista histórico, da Idade Média para a Sociedade Moderna e Pós-modema. Narciso se vê no lago e morre de amor por si mesmo, passa a adorar a superfície do seu reflexo num culto a estética, rumo a novas descobertas de ver o mundo. Alcança a beleza máxima e a partir daí não pode mais fugir da atração magnética que sua imagem exerce sobre si mesmo puxando-o direto para o fundo do lago.

Tenta fugir de tal atração usando mil artifícios através de postulados fixos da Física Clássica, mas é inútil uma vez que o lago forma uma onda gigante com o advento da Física Quântica e submerge toda a superfície das metrópoles onde até então ele se sentia seguro. Tentará então agora renascer como Dioniso e juntar toda a fragmentação do seu corpo que agora é virtualmente fluido num resgate a natureza orgânica há muito esquecida pela estética da sua beleza superficial.

Olhemos para trás, e rebusquemos a morada feudal da Idade Média onde todos nós estávamos protegidos e sendo cuidados pelo grande senhor feudal com seus enormes hectares de terra e bem no meio disso tudo uma belíssima igreja que nos dava a salvação pós morte. Corpos bem protegidos para não estimular o desejo; trabalhos pesados para recompensar o pecado de ter nascido; ordens que vinham do céu.

No fim do século XV, na baixa Idade Média, surge um movimento comercial e cultural como forma de libertarmo-nos das ordens pagãs da religião que nos escravizava - o renascimento. Esse movimento nos deslocava para um ponto em nós mesmos que até então não era permitido ser expressado - o tato. A liberdade de tocar nas coisas como forma de apreciar a beleza em si mesma, remete o homem ao seu instinto dando-lhe uma percepção diferente de si e consequentemente da realidade em sua volta, é o chamado estágio estético que Kierkegaard postulou como primordial para o fenômeno da existência. Estaria a humanidade pela primeira vez alcançando o fenômeno? E estaria ela preparada para tal feito? Que consequências implicaria essa liberdade?

São três estágios, segundo Kierkegaard, para se alcançar o fenômeno da liberdade: Estético - através dos sentidos sensoriais do corpo como: tocar, olhar, saborear, ouvir. O homem extrai uma experiência única para si, remetendo-o a uma nova percepção da realidade e de si mesmo. Ético - terá que por limites nas experiências estéticas como forma de poder administrar tal liberdade de expressão corporal através dos sentidos, se não quiser cair em um vazio total devido as inúmeras fronteiras que são rompidas pelas experiências. Ou seja, é preciso um momento de reflexão para elaborar no raciocínio as experiências. Religioso - por fim, após momentos de reflexões sobre as experiências adquirindo-se assim uma ética, vem a certeza de que por trás disso tudo há uma força maior que governa tudo dentro e fora do homem conectando-o com o universo na mais alta afirmação de suas condutas.

Isso tudo deixa de ser teoria e passa a ser um fato, no que diz respeito ao movimento comercial burguês que coincide com o renascimento, dando força ao momento de transição da percepção da realidade, uma vez que os burgos vendiam especiarias que promoviam à estética. A partir desse momento a humanidade, através desse estágio, ultrapassaria fronteiras nunca antes imaginadas, como é o caso da percepção Iluminista que com seus postulados científicos nos colocam estacas fixas nesse processo de experiências ilimitadas pelas sensações, estabelecendo uma "ética" , onde a manipulação de tais leis físicas seria a grande fé da humanidade.

No entanto essa ética estaria longe de ser uma reflexão sobre as percepções adquiridas através da experiência estética, isto porque não se mediu esforços para explorar os recursos naturais do planeta em nome da estética baseado no paradigma das leis físicas, sem pensar de forma alguma sobre as consequências que isso iria causar a toda humanidade, principalmente com o advento da indústria e sua fabricação da beleza em série!

Tudo agora passa a ser imagem e semelhança do homem, onde a beleza das coisas criadas por ele e sua imagem diante de si mesmo refletida nessas coisas, estabeleceriam sua nova morada. Fixados na imagem que se via e podia tocar, precisava-se agora moralizar as pessoas para viverem nesta nova morada: Corpos estritamente eretos; vestimentas restritamente padronizadas; ajustes perfeitos da capacidade humana para trabalhar na indústria; negação da negação do Si-mesmo, ou seja, mais uma forma de dominação que só se difere da época medieval porque as ordens não mais vinham do imaginário, do Deus Pai todo poderoso, e sim do patrão todo poderoso, que o comercio renascentista Bruges criara e nos prendera na estética mecanicista - O homem criado a partir de linhas de montagem!

E assim prosseguimos com a morada fixa da imagem centrada no: eu = eu ≠ de você, onde a ciência partia para estudar os sujeitos de sua criação para prosseguir com o progresso de uma civilização dourada com a origem das primeiras escolas de psicologia. Por meado do século XIX um homem, que não mais aguentava a artificialidade e a fragilidade com que a ciência discursava, põe a baixo a fé científica e revela uma cultura de rebanhos dominada por uma moral judaica cristã que invadiu todos os corpos. Nietzsche nos fala da objetivação dos humanos e da subjetivação dos objetos, dando ao homem moderno uma falsa liberdade através da representação social.

Por mais belos livros que ele tenha escrito e ninguém tenha dado importância, classificando-o como louco, porque em uma sociedade objetivada para a produção de bens matérias quem consegue se subjetivar é um louco, não demorou muito para a própria ciência encontrar na prática o que Nietzsche havia dito em filosofia. A física clássica encontra sua morte ao descobrir que a matéria é constituída também de energia e não só de partículas sólidas como até então se havia pensado - o lago invade a cidade!

O segundo estágio da existência humana, a ética, se não veio ao homem por meio da reflexão, porque ele estava interessado em coisas fúteis e poder de dominar o outro através dessas coisas, veio justamente pela materialização da sua própria essência. A ciência através da física clássica reduz o homem a simples funções de produções de linhas de montagem, enquadrando-o em sistemas mecânicos até descobrir que toda sua energia agora poderia ser concentrada em um simples pacote - o quanta de energia.

Mas, o homem estava tão viciado em seu progresso que, é claro, não percebeu que a ética se colocava diante dele como uma esfinge que está pronta para revelar o segredo do universo, e sim viu nessa descoberta uma revolução no que diz respeito a evolução da engenharia mecânica - a tecnologia!

Fronteiras agora, tanto psíquicas quanto físicas, seriam rompidas para sempre com o advento da tecnologia, uma vez que informações seriam transmitidas para todo mundo em questões de segundos via satélite. A televisão seria o maior veiculo de comunicação e consequentemente de modelação para conter as infinitas possibilidades de compreensão das informações que agora seriam circuladas com fácil acesso.

Isso se dá por volta do final do século XIX e começo do século XX, onde a psicologia estava se estruturando com a escola behaviorista de Skinner, que através de condicionamentos operante tentava estudar e modelar o comportamento do homem partindo da premissa que o homem é uma tábua rasa e que aos poucos vai sendo preenchido nesse homem condutas da sociedade num processo de socialização educacional.

Logo após isso surge a Psicanálise de Freud, devido à demanda de distúrbios mentais que rondava a psiquiatria, postulando que o homem tem conteúdos, mas que esses conteúdos lhe são completamente inconscientes e estruturados em três fases psico-sexuais na infância, através de três pontos erógenos do corpo do bebé : boca; ânus e genital. Vale salientar que esses estudos psicológicos surgem a partir de uma demanda social por uma nova morada no que diz respeito às novas descobertas científicas e consequentemente, novos sintomas de doenças mentais, onde elas surgiram para um progresso mais seguro em respeito ao homem dessa sociedade.

Com isso a psicologia se eleva a categoria máxima de projeção social perfeita, ficando difícil não inflamar o ego narcisticamente uma vez que o nosso progresso é puramente estético. Portanto nós, estudantes de psicologia, temos que nos cuidar, no que diz respeito a nossa formação, diante dessa classificação, que é para não dificultar nossa prática, achando que tudo está pronto nas teorias só esperando a hora para serem aplicadas, até porque muitas coisas já aconteceram de lá pra cá, e o que está se percebendo atualmente é uma demanda na confusão das informações da era tecnológica que está gerando um vazio imenso no homem visto que tudo é virtual e descartável, inclusive o próprio sujeito. E com certeza isto ainda não está nos livros.

Já é sabido que a Psicanálise só se sustenta hoje devido a sua reformulação por Lacan, que vai estruturar o inconsciente do homem a partir da elaboração da linguagem, proporcionando, a esse sujeito, toda uma estrutura social que lhe proporcionará uma liberdade de ir e vir para onde quiser, ou seja, as estruturas fixas (id;ego;superego) que Freud postulou como fronteiras do recalcados no inconsciente, foram afrouxadas com os avanços tecnológicos devido a imensa gama de desejos possíveis de serem realizados a partir dos agenciamentos dessa linguagem. A nova morada ética se dá agora no próprio sujeito - "a liberdade!"

As pessoas hoje estão se sentindo mais independentes, pensando elas que estão tendo total controle sobre suas ações. Mas, no fim do dia fica uma interrogação se realmente elas controlam ou são controladas, uma sensação de não estarem tocando em nada verdadeiramente sólido. Na era da informação tecnológica pressuposta no novo paradigma, a física moderna abre possibilidades plausíveis para tais práticas psicológicas, uma vez que agora a realidade não se funda mais em tudo que tem peso e medida e sim naquilo que me seduz: o cheiro, o sabor, a imagem. Tudo é virtual. Imediato!

É como se literalmente Narciso tivesse caído no lago. Deixou para trás a terra firme, os parâmetros, e agora vive ao sabor do infinito renascido em Dioniso onde terá que se reestruturar a partir das coisas que estão ao seu redor, através das sensações corporais como um filtro que armazena só informações precisas para se constituir como um novo homem de posse de suas faculdades naturais espalhadas no coletivo.


É preciso que os psicólogos vejam esse sujeito virtual da nova cultura como algo que foi montado e que de repente despencou, espalhando-se com todas as suas peças pelo chão, ou melhor no fundo do lago, para daí ajudá-lo a se remontar através das multiplicidade de suas peças espalhadas na biodiversidade coletiva, eu = a você.

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