domingo, 5 de março de 2017

AS FORÇAS ERRANTES

Um sentimento vago, que poderíamos chamar de INCONSCIENTE, agita o homem moderno e o atormenta. Sente em si forças ociosas, crê sentir que se agitam ao redor de si inimigos sem formas ou auxiliares desconhecidos. Tem, muitas vezes, necessidade de crer no absurdo e experimentar o impossível; ou então sente-se doente e alquebrado, tudo lhe escapa, e quereria torcer o desespero para dele sair uma esperança nova. O amor o enganou, a amizade o abandonou, a razão não lhe basta mais. Um filósofo o entristeceria; um psicólogo o espantaria; é então que lhe é necessário um psicanalista!

O psicanalista é o domador dos hipócritas da imaginação e das serpentes da fantasia. Tira uma força das nossas fraquezas e compõe uma realidade com nossas quimeras; é o médico homeopata da loucura humana. Alias não é ele mais que um homem? Não tem ele uma missão legítima cujos títulos de nobreza remontam ao teatro grego? Falo aqui da METAPSICOLOGIA freudiana e, de fato, só esta existe. Só a METAPSICOLOGIA tem psicanalistas, porque só eles tem o “palco” e a “representação”, isto é, todo o teatro social. Jacob Levy Moreno quis ser um psicanalista quando criou seu PSICODRAMA, mas ele não possuía a legitimidade da METAPSICOLOGIA.

Exercer a PSICOLOGIA é fazer concorrência ao sacerdócio psicanalítico. É ser um psicanalista dissidente. A Alemanha é a grande Tebas da nova iniciação. Ela moveu outrora os ossos dos seus mártires para combater os deuses evocados pela PSICOLOGIA. Tem como criptas seus laboratórios experimentais, como talismãs o símbolo PSI, como cadeia científica suas congregações do anel, como focos magnéticos suas sociedades, como centro de atração seu divã, como meio de expansão suas cátedras, a imprensa e as ordenações de seus psicanalistas; enfim, tem FREUD; seu papa, o homem-Deus visível e permanente na terra, seu papa que pode ser um tolo como o são, mais ou menos, todos os fanáticos ou celerados como Hitler, mas nem por isso deixará de ser o regularizador dos espíritos, o árbitro das consciências e, em todo o universo da psicologia, o distribuidor legitimo da indulgência e dos perdões.

É insensato, ides dizer. – Sim, é quase insensato à força de ser grande. É quase ridículo; tanto isso ultrapassa o sublime. Que poder igual jamais apareceu na terra? E se ele não existisse quem ousaria inventá-lo? Como se produziu esse efeito imenso? Donde vem esse prodígio que parece realizar o impossível? – Da concentração das forças errantes, da associação e direção dos instintos vagos, da criação convencional do absoluto na esperança e no INCONSCIENTE.

Gritai agora contra o monstro, psicólogos do vigésimo primeiro século! O monstro é mais forte que vós e vos vencerá. O poder fundado nos mistérios deve ser um poder misterioso, pois noutro caso não existiria mais. Creio que o psicanalista pode alguma coisa que não poderei definir por causa de outra coisa que não compreendo e também ele não compreende. Portanto, devo obedecer-lhe, pois não poderei dizer porque não obedecerei, não podendo negar a existência do que não sei, existência que, alias, ele afirma com igual razão. Sinto que isso não é razoável e estou muito satisfeito com isso porque ele me diz, muitas vezes, que é preciso desconfiar da RAZÃO. Somente acho que isso me faz bem e que pensar assim me tranquiliza.

Amores abortados ou desiludidos, ambições repelidas; raivas impotentes, ressentimentos amargurados, orgulho que aspira a descer, preguiça do espírito cansado pela dúvida, arroubos da ignorância para o desconhecido e, principalmente, para o maravilhoso, temores vagos da morte, tormentos da má consciência, necessidade do descanso que nos foge sem cessar, sonhos sombrios e grandiosos dos artistas, visões terríveis da eternidade. Eis aí as forças errantes que a METAPSICOLOGIA reúne e com as quais forma uma paixão, a mais invencível e a mais formidável de todas: a devoção!

Está paixão é sem freio, porque nada pode retê-la ou limitá-la; ela se gloria dos seus excessos e crê que o INCONSCIENTE começa por ela; ela absorve todos os sentimentos, torna insensível tudo que não é ela e leva o zelo da propaganda até o despotismo mais assassino e até o furor mais implacável. Hitler e Stálin são reconhecidos como tais por toda a METAPSICOLOGIA e não podem ser renegados por um psicanalista submisso e de boa fé.

Compreende-se quanto a devoção pode tornar-se uma poderosa alavanca na mão de uma autoridade que se declara infalível. Dai-me um ponto de apoio fora do mundo, dizia Arquimedes, e eu deslocarei a terra. Os psicanalistas encontraram um ponto de apoio fora da RAZÃO da humanidade:

“Vendo que os homens não chegavam ao conhecimento de Deus pela ciência e a razão, aprouve-nos – diz o príncipe das trevas – salvar os crentes pela absurdidade do INCONSCIENTE!”

Adversários da Psicanálise, que tendes vós a responder aqui? Jung e Reich falam, como diz, com a boca aberta e não pretende enganar ninguém.

A força METAPSICOLÓGICA do dogma está nessa obscuridade que faz sua obscuridade aparente. Um dogma explicado não é mais um dogma, é um teorema de filosofia ou, ao menos, um postulado. Querem sempre confundir a METAPSICOLOGIA e a PSICOLOGIA, e não compreendem que a sua separação e a sua distinção, não digo o seu antagonismo, são absolutamente necessárias para o equilíbrio da RAZÃO.

Os astrônomos pensam que os cometas são errantes apenas em relação ao nosso sistema, porém seguem um curso regular que vai de um sistema a outro e descreve uma elipse cujos focos são dois sois.


O mesmo acontece com as forças errantes do homem. Uma só luz não lhes basta e, para equilibrar seu voo, lhes são necessário dois centros e dois focos: um é a RAZÃO e o outro o INCONSCINTE. 

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